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Boletins da OMS revelam falhas no controle de dados sobre microcefalia do Ministério da Saúde

O Ministério da Saúde confirmou a terceira morte provocada pelo zika em adultos no Brasil. Foto: Fernanda Carvalho/ FotosP Públicas

FP_Estudo-confirma-relação-entre-zika-e-microcefalia_03Brasília (DF) – A fragilidade das estatísticas oficiais do país ficou exposta mais uma vez após a publicação de dois boletins da Organização Mundial da Saúde (OMS) que mostram que, na era pré-zika vírus, havia mais casos de microcefalia no país do que o divulgado pelo Ministério da Saúde. De acordo com o sistema de informações sobre nascidos vivos (Sisnac), a taxa de notificação de microcefalia no país até 2014 era de 0,5 para cada 10 mil nascimentos. Pesquisas no Nordeste, porém, mostram que os índices são bem maiores.

Segundo reportagem publicada nesta segunda-feira (15/02) pelo jornal Folha de S. Paulo, a estimativa da prevalência da microcefalia nos Estados Unidos varia entre dois e 12 casos a cada 10 mil nascimentos. Considerando-se que nos EUA nascem 4 milhões de bebês ao ano, seriam de 800 a 4.800 casos de microcefalia ao ano.

Os registros oficiais do Brasil, contudo, apontavam apenas 150 casos de microcefalia ao ano, em média, até 2014. Se as mesmas estimativas dos EUA fossem projetadas no Brasil, onde nascem 3 milhões de crianças por ano, seriam de 600 a 3.600 casos anuais de microcefalia.

Para se ter uma ideia, no surto inicial de zika vírus iniciado em 2015, foram confirmados 462 casos de microcefalia ou outras alterações do sistema nervoso central, 41 delas associadas à zika. Outros 3.852 registros são investigados. Mas ao analisar diferentes bases de dados, os grupos de pesquisa encontraram um número muito maior de casos de microcefalia na era pré-zika. A estimativa é que pelos menos 6.000 bebês tenham nascido com a má-formação por ano.

Ao jornal, o geneticista Décio Brunoni, da pós-graduação em distúrbios do desenvolvimento do Mackenzie, afirmou que a subnotificação de anomalias congênitas, como a microcefalia, ocorre em quase todo o país. Já o especialista em genética médica da PUC-PR Salmo Raskin destacou que as informações desatualizadas divulgadas pelo governo federal são um retrocesso.

“Os dados do Ministério da Saúde são inúteis no que se refere à epidemiologia da microcefalia. Melhor que não houvesse porque só serviram para atrapalhar ainda mais o cenário”, completou Raskin.