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“A Voz dos Oprimidos da Venezuela”, por Lêda Tâmega

Foto: George Gianni/PSDB
Foto: George Gianni/PSDB

Foto: George Gianni/PSDB

“Maria, Maria. É um dom, uma certa magia…”, Diz a canção.

No mundo há tantas Marias, que não as podemos contar… Diria o poeta.

São tantas e tão naturalmente presentes em todo o mundo, que a palavra ganhou materialidade, tomou forma, até confundir-se com a própria figura da mulher, incorporando sua natureza, seu ser, sua alma. Dizer Maria é dizer Mulher. É fácil entender essa universalidade e essa identidade se nos reportarmos ao ícone maior que deu origem a tamanha profusão de homônimos e ao simbolismo que nele divisamos, de coragem, perseverança, altruísmo, fé, amor.

Recentemente, foi uma Maria que surpreendeu o mundo ao erguer a voz para denunciar as violações aos direitos individuais e às liberdades públicas em seu país, a Venezuela. Eleita em 2010, com a maior votação do país, a deputada María Corina Machado, uma indomável líder dos protestos contra o regime autoritário de Nicolás Maduro, já tem uma longa história de enfrentamento aos caciques bolivarianos. Em 2012, precisou de menos de três minutos, no plenário lotado do Congresso, para desconcertar Hugo Chaves, a quem acusou de “expropriar e roubar propriedades privadas”, convidou para um debate público e sugeriu que entrasse no mundo real: “Diga a verdade à Venezuela. Aqui há uma Venezuela decente”. (1)

Na semana passada, foi proibida de falar na assembleia da Organização dos Estados Americanos, OEA, porque representantes de governos de esquerda, entre eles o Brasil, manobraram para retirar o tema Venezuela da pauta. Nem depois de ter aceitado convite para integrar temporariamente a delegação do Panamá, pôde relatar a violenta repressão e os assassinatos perpetrados pelo regime opressor de Nicolás Maduro para conter os protestos de rua, iniciados em 12 de fevereiro.

Dois dias depois, o presidente da Assembléia Nacional, Diosdado Cabello, cassou o mandato de María Corina, sob a alegação de que violara dois artigos da Constituição. Informação do jornal O Estado de São Paulo (2) ressalta que “a cassação só ser poderia ser imposta pelo Tribunal Supremo de Justiça, depois do devido processo” e que as disposições dos artigos citados por Cabello não se aplicam ao caso da deputada.

Convicta de seus direitos e deveres, María não se calou. Recomeçou sua luta pela democracia logo que pôs os pés em solo venezuelano: “Um deputado só pode ser deposto pela morte, pela renúncia, pela cassação decidida em plenário ou por uma sentença judicial, respeitadas as garantias constitucionais e o direito de ampla defesa.” Foi clara ao interpelar o presidente da Assembleia Nacional: “Se esse é o preço a pagar para que a voz dos venezuelanos seja ouvida no mundo inteiro, para que todos entendam a magnitude das atrocidades cometidas contra nós, para que se ouça o choro das mães e dos jovens que sentem que tentam arrebatar-lhes seu futuro, saiba, senhor Cabello, que estou disposta a pagá-lo uma ou mil vezes. Sou deputada porque o povo me elegeu. Continuarei na Assembleia Nacional enquanto vocês [eleitores] quiserem.” (3)

Qual será o próximo capítulo dessa história? Não é possível prever. Mas isso não nos desobriga, a nós, mulheres sul-americanas, do dever moral e humanitário de ficar atentas ao desenrolar dos acontecimentos na Venezuela, e de divulgar em nossas redes de relacionamento, ou por outros meios, notícias, denúncias, apelos veiculados por cidadãs e cidadãos venezuelanos para alertar o mundo sobre violações dos direitos humanos, torturas e assassinatos que ocorrem em seu país. Até o último fim de semana, foram registrados 59 casos de tortura, 1900 prisões e 37 mortes. (4)

Tiro o chapéu para essa mulher destemida, que não capitula diante dos agentes daquilo que ela chama “ditadura brutal”.  E, já que o governo do meu país, chefiado por uma mulher, silencia covardemente diante dos crimes que acontecem na Venezuela e finge que não ouve a voz de uma representante do povo, convido as mulheres brasileiras que repudiam a pantomima ideológica a enviar mensagens de solidariedade a essa valente Maria, por sua inabalável determinação de prosseguir na luta pela liberdade, pela democracia e pelos diretos humanos fundamentais do povo de seu país.

Lêda Tâmega é fundadora do PSDB e atual secretária do Secretariado Nacional da Mulher.

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 (1) El encontronazo de María Corina y Chávez

(3) Así fue la llegada de María Corina a Venezuela #27F

(4) Revsta VEJA – edição 2.367 – 2 de abril de 2014-04-01