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“Síndrome de Guillain-Barré: outra doença associada ao zika vírus”, por Céumar Turano

Céumar Turano_1A síndrome de Guillain-Barré associada ao zika traz um alerta ao Brasil. A epidemia de zika trouxe, além do surto de microcefalia que vem amedrontando o Nordeste brasileiro, principalmente, um temor em relação à síndrome de Guillain-Barré. A doença autoimune não é uma novidade para a medicina, mas sua possível relação com o vírus zika, sim. Desde que aumentaram os casos suspeitos da infecção no Brasil, foi percebido também um crescimento no número de pessoas afetadas pela Guillan-Barré.

Em 29 de fevereiro, uma publicação na inglesa The Lancet, uma das principais revistas científicas do mundo, veio reforçar a relação. Os pesquisadores fizeram um estudo de caso do surto de zika na Polinésia Francesa, entre outubro de 2013 e abril de 2014, mesmo período em que foi observado o aumento dos casos da síndrome.

O que é

A síndrome de Guillan-Barré é uma reação a agentes infecciosos, como bactérias e vírus. É uma doença autoimune, na qual o sistema imunológico passa a atacar a bainha de mielina, estrutura que recobre e protege nervos periféricos, garantindo a velocidade de condução dos estímulos motores. A doença não escolhe idade nem sexo.

Sintomas

Fraqueza e paralisia muscular. É classificada como paralisia ascendente, por manifestar-se primeiro nas pernas, podendo irradiar-se para o tronco, braços, pescoço e face.

Gravidade

Pode apresentar diferentes graus de agressividade, desde leve fraqueza muscular em alguns pacientes a casos de paralisia total dos quatro membros em outros. O principal risco é quando ocorre o acometimento de músculos respiratórios ou, até mesmo, cardíaco, que pode levar à morte.

Tratamento

Existem dois processos de tratamento: a plasmaferese e as infusões de imunoglobulina.

Plasmaferese: em um sistema semelhante ao da hemodiálise, por meio de um cateter, o médico remove do sangue os anticorpos que estão atacando o sistema imunológico. O sangue do paciente é filtrado e devolvido a ele sem toxinas. Esse tratamento é mais barato, porém é necessário que o hospital tenha o aparelho e profissionais capacitados para realizar o procedimento.

Infusões de imunoglobulina: as imunoglobulinas são uma mistura de anticorpos produzidos naturalmente pelo sistema imune do corpo. Ao serem injetadas no organismo, elas distraem o sistema de defesa e bloqueiam os anticorpos que estão contribuindo para a doença. Essa opção é mais simples, entretanto, mais cara. O paciente precisa de cerca de dez frascos de 100 ml por dia, durante cinco dias. Cada frasco custa em média R$ 1,2 mil, totalizando um tratamento de R$ 60 mil.

Sequelas

Por causa da capacidade de regeneração da bainha de mielina, grande parte dos pacientes consegue se recuperar cerca de um ano depois. Entretanto, em alguns casos, pacientes podem reapresentar o enfraquecimento e a recuperação pode levar anos. A idade do paciente influencia na intensificação das sequelas. Acima de 50 anos, a fraqueza e a paralisia acontecem mais rápido.

O número de casos da síndrome de Guillain-Barré está aumentando no Brasil. O país teve uma média de cinco casos novos por dia no ano passado, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Onde a síndrome cresceu mais foi em Alagoas. Dos 50 casos que a Santa Casa de Maceió atendeu em todo o ano passado, pelo menos 41 apresentaram sintomas do vírus da zika. Até meados de fevereiro deste ano, em todos os dez casos, os pacientes tiveram sintomas do vírus da zika.

A OMS divulgou um relatório sobre os casos da síndrome de Guillain-Barré no Brasil. Houve aumento de 19% entre janeiro e novembro de 2015 em relação à média dos anos anteriores. O número total de pacientes registrados com a doença autoimune no período foi de 1.708. O país é o mais afetado pelo zika vírus no mundo. De acordo com a OMS, o aumento da incidência foi maior em Alagoas (aumento de 516,7%), Bahia (196,1%), Rio Grande do Norte (108,7%), Piauí (108,3%), Espírito Santo (78,6%) e Rio de Janeiro (60,9%).

Com a disseminação do zika vírus, se trava hoje uma batalha. Uma batalha contra a doença e a falta de recursos públicos para dar assistência às vítimas do zika. O tratamento desses pacientes é muito caro. Eles precisam de imunoglobulina, plasmaferese e fisioterapia. Só o custo por dia de uma UTI por paciente é de cerca de R$ 10 mil. Se incluirmos os remédios, chegamos à casa dos R$ 50 mil por paciente em UTI por dia.

É preciso uma ação urgente de autoridades municipais, estaduais e federais. A situação de falta de recursos para a saúde atinge em cheio as vítimas do zika. E recuperar um paciente na UTI é só a primeira parte do drama. As sequelas costumam ser graves. Muitas vezes, a reabilitação leva anos e demanda assistência altamente especializada.

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* Céumar Turano é jornalista, publicitária e radialista. Produtora Executiva de Conteúdo Web na Diretoria de Produção da TV Brasil, é filiada ao PSDB do RJ.