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A criança não quer pais perfeitos, quer pais presentes, diz cineasta

Foto: Corbis
Foto: Corbis

Foto: Corbis

Por Sonia Racy

02/05/2016, 02h00

Estela Renner, diretora de ‘O Começo da Vida’, que estreia esta semana em SP, relata o que aprendeu, para fazer o documentário, ouvindo pais e especialistas  de nove países sobre a importância do amor e do ambiente na primeira infância

Quando a cineasta Estela Renner recebeu o convite para dirigir um filme sobre a primeira infância não imaginava que passaria por tantas descobertas. Mas, à medida que sua pesquisa se desenvolvia, surpreendeu-se com a capacidade transformadora desse período das crianças. É esse retrato que ela aborda e expõe no documentário O Começo da Vida que estreia em São Paulo na quinta-feira.

Interessada em filmes engajados, a diretora de Muito Além do Peso saiu à cata de um recorte que se mostrasse capaz de “transformar a sociedade de alguma maneira”. E obteve êxito, como explica nesta entrevista à repórter Marilia Neustein. “O filme se tornou uma ferramenta de empoderamento para os pais. Porque mostra que a criança não precisa de brinquedos caros e nem de experiências caras. O que ela precisa é muito mais acessível”, afirma. E acrescenta: “Quem já viu uma criança fazer suas descobertas encontrou ali o extraordinário”. É o “estar presente, mesmo cansada. A criança não quer os pais perfeitos, quer que estejam presentes”.

O longa, que será exibido dia 26 no BID, em Washington, e dia 27 na ONU, em Nova York, procura demonstrar como algumas dessas questões são universais. De que forma? Estela viajou e entrevistou pessoas de nove países. Sua lista inclui gente comum e celebridades como Gisele Bündchen e o Nobel de Economia James Heckman. Dessa diversidade extraiu lições sobre o peso do amor, das relações em família. Deu-se conta de que não estava fazendo um filme “sobre primeira infância”, mas “sobre um projeto de humanidade, que é algo muito maior”. Abaixo, os melhores trechos da entrevista.

Quais motivações a levaram a fazer um filme sobre esse tema?
A minha produtora, a Maria Farinha Filmes, tem um interesse grande em produzir filmes engajados, que as pessoas lá na ponta estão desejando como informação. Isso aconteceu com o Criança, a Alma do Negócio, Muito Além do Peso, Território do Brincar, Tarja Branca.

E por que primeira infância?
A Fundação Maria Cecília Souto Vidigal nos procurou, porque queriam um filme focado nesse tema – e sem nenhum recorte específico. Quando o convite chegou, pensei no desafio e numa grande pesquisa. Então, me questionei qual seria o recorte adequado.

E o que descobriu com a sua pesquisa?
Durante todo o processo de leituras ou entrevistas com especialistas, uma constatação se repetia: que a maior revolução da neurociência, da pedagogia, da psiquiatria… é que a criança é formada não só a partir da sua carga genética, mas também a partir das relações que ela tem com o meio ambiente.

Concretamente, que ambiente e que interações são essas?
Foi justamente o que me perguntei. Ficou claro que, ao falar de ambiente e interações, todos esses especialistas estavam falando de amor. A relação que temos com nossos irmãos, avós, com as histórias que nos são contadas… isso é o que nos forma. Então, se temos tudo isso pra dar a uma criança… por que não estamos dando? Como podemos ser esse ambiente para as crianças? Fiz um filme inteiro sobre isso.

Você já explicou que o filme é dividido em atos.
Sim, no primeiro mostramos como o bebê não é um objeto de cuidados, mas uma pessoa potente, capaz. Isso deve ser levado muito a sério. Meu olhar em relação aos bebês mudou muito, porque eu tenho três filhos. Eu achava importante as crianças brincarem, mas não entendia o que existia dentro da brincadeira. O filme abre para essa importância dos relacionamentos: com a mãe, pai, a natureza, o brincar, a importância de ficar em silêncio. E o terceiro ato fala um pouco do que pode acontecer se a criança não tem isso.

E como foi essa parte?
Foi muito forte. No começo eu achava que estava fazendo um filme sobre primeira infância. Passando o tempo, descobri que estávamos falando sobre um projeto de humanidade. Algo bem maior do que nós.

Você entrevista, no filme, pessoas de diversos países, culturas e classes sociais. O que de universal você encontrou?
Fui buscar um recorte universal dos relacionamentos humanos. Estamos todos no mesmo barco e isso ficou muito claro. Falamos com um pai viúvo – que mora na maior favela da África –, com um chinês de classe média e com Gisele Bündchen. E fizemos a mesma pergunta: “O que você quer para seus filhos?” E eles querem a mesma coisa. A Gisele, por exemplo, diz que quer ouvi-los. E a mesma resposta tivemos de uma mãe que tem 13 filhos e vive num ambiente marcado pela violência. Ficou claro que o recorte do filme não é um recorte geográfico, e sim de sentimentos, de relacionamentos humanos, que nos unem.

Isso foi o mais revelador?
O que foi mais revelador foi entender, no decorrer do processo, que esse filme pode ter uma importância grande. Um dos desafios que me propus foi pegar o conhecimento de especialistas renomados que entrevistamos e juntá-lo com o cotidiano de todo mundo. E o filme se tornou uma ferramenta de empoderamento para os pais. Porque mostra que a criança não precisa de brinquedos caros e experiências caras. O que ela precisa é de algo muito mais acessível. Quem já viu uma criança fazer suas descobertas encontrou ali o extraordinário. É só você conseguir estar presente, mesmo cansada. A criança aceita seu cansaço. Ela não quer os pais perfeitos, mas presentes.

No trailer tem uma fala do prêmio Nobel James Heckman, sobre como o amor é uma parte importante para a economia e pouco valorizada na sociedade.
Acho que esse conceito ficou muito na casa do poeta viajante, do hippie… Mas se há uma coisa que faz o mundo girar é o amor. Só que não o colocamos no centro de tudo. Precisamos de um Nobel de Economia dizê-lo para acreditar. Mas, tudo bem. Ele está falando e espero que isso seja importante para líderes de empresas, políticos, para quem pode fazer mudanças em um escopo maior.

Leia a íntegra.