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“Dona Xepa”, análise do ITV

PRESIDENTA DILMA DURANTE ENCONTRO COM O EX PRES LULA EM SAO PAULO, NO HOTEL MERCURY. Foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula

PRESIDENTA DILMA DURANTE ENCONTRO COM O EX PRES LULA EM SAO PAULO, NO HOTEL MERCURY. Foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula

O governo Dilma vive clima de fim de feira. Não é apenas a sensação de salve-se quem puder que reforça a impressão. A presidente da República e seu tutor lançaram-se numa operação de mercadejar apoios, negociando-os na bacia das almas. É a baixa política da qual o PT desde sempre lançou mão enquanto esteve no poder.

Com o desembarque iminente do PMDB, que deve ser seguido por PP, PSD e PR, Dilma e seus porta-vozes petistas passaram a repetir aos quatro cantos que distribuirão cargos e verbas aos montes para seduzir quem quiser se aventurar em naufragar junto com o governo. Dizem isso – aparentemente – sem o menor pudor e sem nenhum constrangimento. Deve ser porque apenas agem agora como sempre agiram.

Em entrevista dada ontem a correspondentes estrangeiros, Lula disse que irá à cata das migalhas peemedebistas para reeditar o formato que, segundo ele, deu certo no início de seu primeiro mandato. “Num primeiro momento, o PMDB não me apoiou, mas uma parte na Câmara e no Senado me apoiava e conseguimos governar”, disse o ex-presidente.

Talvez fosse desnecessário recordar, mas foi nesta época de varejão político que vicejou o mensalão, a compra de votos no balcão do Congresso para assegurar apoio ao governo petista e que, anos depois, levou uma penca de próceres petistas à cadeia. Pelo visto, Lula não se constrange em dizer abertamente – e para todo o mundo, literalmente, ouvir – que este é o modelo que classifica como mais venturoso.

Não há mais um pingo de convicção ou de conteúdo programático nos apelos do PT em prol da sustentação de Dilma. De resto, quase nunca houve. Sobrou explícito apenas o fisiologismo, o clientelismo e a corrupção que marcam o presidencialismo de coalizão protagonizado pela presidente da República e seu partido.

Ninguém no Palácio do Planalto ou na Esplanada dos Ministérios parece ser capaz de responder à questão básica: por que Dilma quer permanecer por mais dois anos e nove meses no cargo? O que ela acha que consegue fazer em favor do Brasil? Que condições imagina ter para reverter a monumental crise política, econômica e ética que patrocinou? As respostas serão sempre as mesmas: nada.

Nem Dilma nem seu tutor conseguem promover qualquer diálogo em busca de consenso. Simplesmente porque sempre apostaram no conflito, jamais admitiram fraquezas e/ou erros, nunca se dirigiram com sinceridade ao povo brasileiro para assumir sua parcela de culpa pelo atual estado das coisas. Optaram, sempre, pela mistificação e pela mentira.

No apagar das luzes de seu tétrico governo, Dilma Rousseff assume o papel de vendedora que rifa produtos que sobraram no fim da feira. Vende-os pelo preço que o cliente está disposto a pagar, na baciada. Mas na hora da xepa em geral só sobra fruta podre. É este o folhetim que a presidente ainda protagoniza, embora por pouco tempo mais.