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Não é “zica”, por Thelma de Oliveira

Thelma-de-Oliveira-Foto-George-Gianni-PSDB-2.jpgO momento é grave e exige das autoridades públicas brasileiras total dedicação e soma de esforços. Especialmente dos responsáveis pela saúde nos municípios,  nos estados e na União,  para combater o Aedes Aegypti, que traz a dengue, a chikungunya e agora zika.

O quadro é gravíssimo.  Os mais de quatro mil casos detectados, em apenas um mês no Brasil, revelam o tamanho da encrenca que o nosso desestruturado sistema de saúde pública enfrentará nos próximos meses e anos.

O surgimento da zika é mais do que uma simples “zica” para o governo Dilma Rousseff e o seu Ministério da Saúde. É um atestado da incompetência dos governos federais petistas que ao longo de treze, dos quinze anos desse século, foram incapazes de formular e executar um eficiente programa para exterminar o Aedes Aegypti.

Prova disso é que ao longo desses anos,  não houve redução nos casos de dengue no país, que ganhou a companhia da chikungaya – também em curva ascendente ano após ano – e agora da desconhecida e aparentemente imbatível zika, com k.

Todo cuidado é pouco e a manifestação da Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou para o perigo de uma pandemia mundial, com elevado grau de risco – pelo desconhecimento da doença e mais ainda da inexistência de uma vacina eficaz – pelo crescimento “explosivo” de casos, especialmente junto a populações carentes e de baixa imunidade.

Esse é o caso do Nordeste brasileiro, que concentra 86% dos casos registrados/investigados pelo Ministério da Saúde, que adotou uma avaliação que está sendo questionada e que pode prejudicar milhares de mulheres e bebês.

No final do ano passado, o Ministério da Saúde tomou a iniciativa de fazer, formalmente, a correlação direta entre o vírus zika e a microcefalia, sem muito embasamento técnico e médico, questionada pela OMS. Ela, ao contrário do governo brasileiro, não estabelece como certa e definitiva a relação entre o vírus e a microcefalia.

Na semana passada, a diretora-geral da organização, Margaret Chan, foi enfática ao anunciar o estado de alerta mundial: “ainda que o elo causal entre a infecção pela zika durante a gravidez e a microcefalia não tenha sido – e enfatizo isso – estabelecido, as evidências circunstanciais são sugestivas e extremamente preocupantes.”, definiu.

Ou seja, a pressa do Ministério da Saúde em fazer essa vinculação – sem embasamento científico claro, preciso e reconhecido internacionalmente – está pondo em risco a vida de milhares de mulheres e de seus bebês.

A Folha de S. Paulo registrou nessa semana o depoimento de profissionais médicos que denunciam a realização de abortos clandestinos – especialmente de grávidas carentes – por causa do medo de seus fetos desenvolverem a microcefalia, depois de atestarem que são portadoras do vírus.

Como disse no começo, o assunto é sério, merece o cuidado e a atenção de todos. Não podemos confiar cegamente numa gestão petista que durante treze anos conseguiu transformar a dengue em epidemia e pode estar levando milhares de mulheres a provocar aborto.

É claro que a população também tem sua responsabilidade nesse processo ao não adotar as medidas cautelares necessárias – limpar suas casa, combater a proliferação do mosquito e permitir o acesso aos agentes sanitários, por exemplo – mas ao governo federal cabe a reponsabilidade maior na prevenção e combate ao Aedes Aegypit. A faxina que foi realizada na Esplanada dos Ministérios e que encontrou vários focos do mosquito mostra o descaso do governo com os cuidados que recomenda e cobra da população, mas que não faz nos prédios que ocupa na capital da República.

Nosso sistema de saúde pública está falido e precisará de todos e de uma forte mobilização popular e de entidades para evitar que a microcefalia também se torne uma epidemia.