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Enem 2015: adolescente comenta redação que colocou a violência contra a mulher na sala de estar

Foto: Arquivo pessoal
Foto: Arquivo pessoal

Foto: Arquivo pessoal

Brasília (DF) – Quem não foi abduzido no dia 25 de outubro sabe que o tema da redação do Enem 2015 foi “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”. Divulgado após o fechamento dos portões, deve ter derrubado vários machistas, já que o Brasil é um dos países menos amigáveis do mundo às mulheres. A cada 4 minutos uma mulher é estuprada por aqui, somos 50 mil vítimas por ano.

Ao escolher esse tema o Enem deu um grande passo na direção certa da luta pelo fim da violência contra a mulher. É falando sobre o monstro, trazendo-o à luz, debatendo sua existência e modo de agir que se começa a finalmente desmontar um quadro tão triste. O silêncio de nada adianta, sempre acabamos por atrair aquilo que mais tememos.

Hoje o PSDB Mulher Nacional comemora esse momento de transformação na cultura brasileira, convidando uma adolescente a comentar a redação que causou polêmica e trouxe a discussão sobre a violência contra a mulher para a sala de estar de todas as famílias do país.

Com a palavra, Bruna de Oliveira Assumpção Cruz:

Falar sobre o tema abordado pela redação do ENEM é algo bastante delicado. Afinal, esse tema já não deveria mais ser polêmico em pleno século XXI. Violência contra mulher? É sério que isso ainda existe na nossa sociedade? Sim, é sério, é grave e, sim, é necessário discutir. Porque é um desgosto para a sociedade brasileira saber que ainda existem pessoas que defendem isso, e o pior de tudo, dizem. E pior ainda, fazem.

Então a iniciativa do governo é válida, principalmente porque conseguiu, em uma prova, fazer com que, em média, sete milhões de jovens parassem para pensar sobre isso. E o melhor de tudo, sem o direito de defenderem um ponto de vista, que querendo ou não, é crime. Eu defendo essa visão, que, como menina mulher, preste a entrar na fase adulta da vida, convivo com esse tipo de violência: violência verbal, violência física, violência moral.

As mulheres hoje saem nas ruas, mas sempre com medo de serem abordadas por homens que as ameaçam de diferentes formas. E o pior disso tudo é ouvir pessoas, inclusive mulheres, falando que isso tudo é culpa da própria mulher. Que ela “pediu” por causa da sua roupa, da sua forma de falar ou até mesmo por andar com amigos do sexo masculino.

Desde quando isso dá direito a alguém de violentá-la? Isso quer dizer que agora a mulher precisa viver dentro de uma gaiola? Que o lugar dela é dentro de casa? De verdade, não sei aonde pessoas com esse tipo de pensamento querem chegar.

Quando eu tinha 15 anos, em uma conversa com um colega de classe passei por uma situação constrangedora. Quando estávamos falando sobre futebol, e depois de eu ter comentado que gostava do esporte e que jogava com amigas, ele retrucou dizendo que mulher nunca saberia jogar como um homem.

A revolta bateu na hora. Afinal é o sexo que define se a pessoa sabe ou não fazer algo? É isso mesmo? Depois disso, vi que as pessoas com o pensamento fechado dessa forma não conseguiriam entender que o sexo não define nada. A mulher é tão capaz de cumprir qualquer atividade como qualquer homem.

Além disso, cheguei a ouvir do mesmo menino comentários como “lugar de mulher é na cozinha”. É assim que surge o futuro agressor, aquele que vai agredir a namorada por ciúmes. Ou o marido que vai querer agredir a esposa por ela querer fazer algum esporte que a sociedade impõe que seja “coisa de homem.”

Por outro lado senti orgulho, de ver que nosso país não está perdido. Apesar muitos adultos, terem essa visão discriminatória. Os adultos falam tanto em mudar o país, mas não praticam a mudança. É bom perceber que nós, jovens, já sacamos que esse tipo de atitude não nos levará a lugar nenhum. Que para um futuro melhor é necessário respeito, independente do sexo, igualdade.

E o Enem, nos colocou para pensar que isso, É NECESSÁRIO, isso é muito, muito bom. Muitas mulheres ainda sofrem, e caladas, com medo, apanham, são violentadas sexualmente, e isso tudo porque muitas vezes ficava em baixo das cobertas. Afinal, muitas mulheres já acham normal serem chamadas de “gostosa” por um homem na rua. E é assim que começa nesses pequenos comentários, e atitudes que vemos que a violência pode evoluir.

Eu como mulher quero e tenho direito de salário igual, direito de andar na rua sem medo de me julgarem pela roupa, quero tenho direito de ser feliz por ser quem sou. Não depender de homem. Não queremos ser superiores, e muito menos inferiores. Nós mulheres queremos ser tratadas de maneira igualitária.

*Bruna de Oliveira Assumpção Cruz tem 16 anos e nasceu no dia 21 de dezembro de 1998 em Salvador