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“As conquistas das mulheres negociadas às escuras pelo PT”, por Nancy Thame

Nancy Thame
Nancy Thame destacou o pioneirismo do Estado de São Paulo no enfrentamento da violência, maior obstáculo para o empoderamento da mulher, segundo a ONU

Nancy Thame 

Não foi a primeira vez que o fantasma da extinção rondou a Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres nos bastidores do Governo Federal. Mas, agora que a crise criou um ambiente de pressão no qual a presidente tenta remediar o irremediável, a ameaça se concretizou. Ironia do destino, justamente quando o Brasil tem no mais alto cargo da administração pública uma mulher vimos a nossa pasta, com status de ministério e tão incisivamente defendido pela presidente em debates eleitorais com o candidato de oposição Aécio Neves, posta no balcão de negociações. Á revelia das manifestações dos movimentos de mulheres em todo o Brasil, que consideravam este um retrocesso com danos incalculáveis, o PT mostrou a relevância que têm os segmentos que precisam ser empoderados para uma democracia igualitária. Tudo aconteceu na calada da noite, desrespeitando um coletivo nacional e histórico de luta por igualdade de gênero. Lamentável. 

Entre o que é o legal e o que é político, declaradamente estou aqui para protestar, porque as mulheres mereciam a manutenção desta conquista legítima que nos concedeu o governo Fernando Henrique Cardoso, quando tivemos a primeira secretária Nacional de Políticas para as Mulheres, Solange Jurema, hoje secretária municipal do Trabalho, Abastecimento e Economia Solidária de Maceió e presidente Nacional do Secretariado da Mulher do PSDB. Neste campo no qual estamos diariamente, não diuturnamente, porque somos mães, avós, esposas, profissionais, somos cidadãs  argumentando em favor da voz e dos direitos da mulher e trafegamos entre o legal e o político. Naturalmente não considero este último menos importante, afinal a escolha que fiz para militar em nome da causa feminista foi a política. Mas existe o mínimo de coerência que precisa ser considerada nos debates e nas decisões. Vivemos numa sociedade em transformação, tanto é que hoje estou aqui escrevendo publicamente sobre um assunto, enquanto reflito sobre a necessidade de argumentação pela igualdade entre homens e mulheres.

A ironia novamente se impõe, porque neste campo de atuação, na política, as mulheres superam o número de homens votantes, ou seja, somos a maioria a escolher governantes e parlamentares. Mas ainda somos pouco mais de 10% representando a sociedade no Congresso Nacional.  E nesta sociedade é onde estamos à frente de quase 40% dos lares brasileiros, somos 103,5 milhões de mulheres neste país, o equivalente a 51,4% da população, segundo o IBGE. As mulheres que trabalham, sobretudo movimentam os setores da economia pelo empreendedorismo, ainda ganham salários mais baixos, quando no mercado e com carteira assinada. Nos índices de desemprego, agora lá no topo das estatísticas, figuram em maioria também. Entre as mulheres mais pobres, negras, deficientes, estão os índices que as políticas públicas precisam enfrentar com persistência, sistematicamente, com um olhar abrangente, de prevenção, de proteção e de acolhimento. Segundo a ONU, na Conferência Beijing +20, em março deste ano, em Nova Iorque, a violência permanece como a principal barreira para o empoderamento da mulher no mundo. Estive lá representando o Secretariado da Mulher do PSDB e pude ouvir em diferentes idiomas o clamor pela igualdade de direitos, pela oportunidade de ser mulher e estudar, trabalhar, ter saúde e paz, integridade física e emocional para exercer o seu papel na sociedade. Quantas brasileiras em estado de atenção agora me leem aqui? Talvez nenhuma, porque lhes falta tanto, a começar pela cidadania. Mas há empresárias, acadêmicas, formadoras de opinião, parlamentares, militantes em partidos políticos, magistradas, administradoras públicas, trabalhadoras, donas de casa, mulheres com quem convivo e também as que por aqui convido a refletir sobre o que significou entregar ao balcão de negociações o nosso espaço de construção e de aplicação das políticas públicas em benefício dos brasileiros. A Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres era desta parcela de mais da metade da população do país e dos que destas mulheres dependem. 

 

*Nancy Ferruzzi Thame, 56, é engenheira agrônoma, bacharel em direito e pós- graduada em gestão ambiental e ciência política. É integrante da Executiva Nacional do PSDB e presidente do PSDB-Mulher São Paulo.