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“O corpo da mulher é usado como arma de guerra e isso é trágico”: Branca Moreira Alves

Foto: Acervo pessoal de Branca Moreira Alves
Foto: Acervo pessoal de Branca Moreira Alves

Foto: Acervo pessoal de Branca Moreira Alves

Brasília (DF) – De família tradicional carioca da alta burguesia, Branca Moreira Alves foi criada para casar e ter filhos, como toda moça bem-nascida em 1940. Ela bem que tentou: educada em colégio de freiras, casou cedo, teve duas filhas e formou-se em História e Direito – foi promotora no Rio de Janeiro. Não era para ser. Quis o destino que o marido fosse fazer doutorado em Berkeley (EUA) e que ela transferisse seu curso para a mesma universidade, onde descobriu o feminismo em plena efervescência de 1970. No auge da resistência à guerra do Vietnã e do movimento Black Panther, Branca tomou um banho de política, se encontrou no feminismo e entendeu sua educação, seu lugar na família original e derivada e, o mais importante, o seu lugar no mundo. A partir daí, sua trajetória entrelaça-se com a do movimento de tal maneira que é impossível separar um da outra.

De volta ao Brasil é chegada a hora de fazer história: nos primeiros grupos de reflexão de mulheres; no Ano Internacional da Mulher, em 1975, com apoio da ONU e da ABI – Associação Brasileira de Imprensa, que deu apoio e cedeu espaço. Em 1987, Moreira Franco criou o Conselho Estadual dos Direitos da Mulher no Rio e Branca, por indicação do movimento de mulheres, foi a primeira presidente do CEDIM/RJ; em 1992 a Organização das Nações Unidas a convidou para abrir o escritório em Brasília do UNIFEM – Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para Mulher para o Brasil e o Cone Sul, onde ficou por onze anos. A entrevista com Branca é antes de tudo uma aula do pensamento feminista, essencial.

PSDB Mulher – Recentemente ouvi de várias mulheres jovens que o Feminismo é agenda vencida, por que tanta rejeição, o movimento perdeu a sintonia com suas representadas?

Branca – Eu devolveria a pergunta e iria mais longe: Perguntaria se elas acham que não existe discriminação contra a mulher, por isso acabou? Se elas acham que não precisam mais lutar, por isso é agenda vencida? Se elas acham que não existe assédio sexual, estupro, violência? O “chamado ‘telhado de vidro”, uma expressão americana – os americanos são muito bons em inventar expressões curtas que dizem muito -, que significa um limite invisível, onde a mulher bate com a cabeça e não sai mais daquilo, quando está subindo. Elas acham que não existe mais isso?

O que acontece é que a nossa geração fez a sua luta, que tinha a nossa cara. Agora a luta tem que ter a cara da geração mais nova, ou será que elas acham que a mulher que trabalha e ainda por cima é responsável pela família e pelas crianças, sem ter um homem ao lado dela fazendo a mesma coisa, não é um problema a ser enfrentado?

Questões não resolvidas

Ainda existe uma agenda muito grande, ou elas acham que a legislação, criada majoritariamente pelos homens e que proíbe o aborto, por exemplo, é legítima? Elas concordam que o sexo masculino, através do Congresso, controle o corpo e a decisão da mulher sobre o seu corpo? Não é que eu defenda o aborto como sendo uma saída feliz, o aborto é o fracasso de um programa de saúde para a mulher que leve a todas as possibilidades de evitar filhos – e falo aqui de mulheres porque afinal é o nosso corpo e a nossa decisão, é claro que o ideal é que ter ou não ter filhos seja uma decisão mútua, tomada com o companheiro, mas isso nem sempre e na maior parte das vezes não é o que acontece. Então, devolvo essas perguntas e quero até que você as leve a essas mulheres, para ver o que elas respondem.

Gostaria de saber se elas estão atualizadas quanto a tudo o que está acontecendo em termos de movimento de mulheres com as meninas de 15, 20 anos. Basta entrar na internet para ver adolescentes organizando grupos de defesa para ter o direito de sair às ruas sem ser assediadas e estupradas e descobrindo que essa ainda é uma pauta importante. E é uma pauta dura e séria.

PSDB Mulher – Olhando para a luta feminista em seu ápice, no final da década de 60, e o Brasil de 2015, em que as mulheres ganham 30% a menos que os homens para exercer o mesmo cargo e função; onde foi que erramos?

Foto: Acervo pessoal de Branca Moreira Alves

Foto: Acervo pessoal de Branca Moreira Alves

Onde foi que a gente não conseguiu chegar. E olhe que nessa minha lista de desejos e demandas eu nem entrei nessa questão. Acho que não erramos não, avançamos do ponto de vista histórico, como um foguete. Você está falando de 50 anos enquanto nós falamos de um período de 10 mil, em que o lugar da mulher foi subalterno, em que essa subalternidade foi justificada ideologicamente com a religião como ainda se vê hoje, nos países muçulmanos. Em que houve todo o tipo de argumentação ideológica, filosófica e até biológica para “explicar” porque a mulher deveria ser mantida na posição de subordinada ao homem. Dentro dessa perspectiva de 10 mil anos, vemos que em 50, a gente fez muita coisa.

Temos também que prestigiar as pioneiras, que começaram no século XVIII, na Revolução Francesa. Poucos sabem – porque os historiadores homens não contam -, mas quando se escreveu a declaração dos direitos do homem e, nela não entrava a das mulheres, muitas exigiram que seus direitos fossem incluídos e acabaram guilhotinadas. É uma história de muito heroísmo, mas de, no máximo, 250 anos. Não acho que tenhamos falhado não, acho que avançamos muito.

As PECs 23 e 24 foram rejeitadas na Câmara dos Deputados, um retrocesso, já que 32 países adotam esse tipo de quota legislativa como política de inclusão das mulheres dentro da política. Está faltando o olhar feminino na legislação brasileira? Como inserir a mulher na política nacional?

Está faltando muito. São redutos masculinos em que a mulher tem entrado com dificuldade. É uma questão de luta e perseverança e acho que tem uma questão cultural aí também, que é muito profunda. Primeiro: a política não atrai as mulheres; segundo: toda essa questão da dupla jornada, delas serem as responsáveis pela família, por estar em casa, tudo isso são impedimentos. Tem a questão cultural também, tem a questão da introjeção da opressão, que o Paulo Freire e outros ideólogos falaram; da introjeção da submissão; da falta de autoestima. São coisas muito complexas que são obstáculos no caminho da mulher para participar, embora sua participação seja fundamental.

Nós vimos aqui no Brasil, durante a Constituinte, a bancada feminina foi muito atuante e é muito importante isso. Acima dos partidos a consciência de ser mulher e do que ela tem que enfrentar muitas vezes une mulheres de correntes políticas diferentes, nessa luta comum.

PSDB Mulher – O Brasil é o 2º pior destino turístico do mundo, para mulheres desacompanhadas. Aqui acontece um estupro a cada 4 minutos, segundo dados do 8º Anuário Nacional de Segurança Pública. Faliu o Estado ou falimos nós?

Falha a nossa cultura. Faliu a questão da segurança pública, evidentemente, que é responsabilidade do Estado, mas essa cultura de violência contra a mulher é muito enraizada. A cultura de que o homem tem o direito de usar o corpo da mulher é muito enraizada, é muito internacional, é muito assustadora.

Estive agora nos Estados Unidos em uma formatura e vi que as meninas usavam um número em algarismo romano, naquele chapéu preto quadrado e não entendi aquilo. Depois li uma reportagem falando sobre o número de estupros nos campus das universidades americanas e aquele número romano era um artigo de um código de defesa da mulher. A matéria falava da responsabilidade das autoridades sobre os estupros e dizia que as meninas denunciavam a violência às universidades e nada era feito, o estuprador continuava estudando, não era punido.

A questão da violência contra a mulher transcende fronteiras. O estupro é e sempre foi usado como arma de guerra, nas civis e nas entre países. O corpo da mulher é uma arma de guerra e isso é uma coisa muito trágica, que nos desencoraja, porque é essa violência introjetada pelo homem, que faz com que ele pense ter direito a tudo sobre o nosso corpo.

A complexidade do feminismo do século XXI

Dizer que o feminismo não tem uma agenda? A agenda é imensa! Acho que hoje ela é até mais difícil do que as anteriores dos séculos XVIII e XIX, que eram o direito a estudar, a trabalhar, o direito ao voto, o direito a sair de casa e ter um trabalho que permitisse ser independente economicamente. Todos são direitos que foram sendo conseguidos aos poucos e tinham uma data para se conseguir. O voto, por exemplo, um dia chega lá legisla e vota. Acho que agora é mais difícil porque são conquistas que dependem de uma mudança cultural muito profunda. E nisso, não é que tenhamos falhado porque bem que a gente tenta, mas o muro é muito grande, o obstáculo é muito grande, temos que continuar na luta para mudar as cabeças.

PSDB Mulher – A Pequim+20 acaba de acontecer em Nova Iorque, em sua opinião, pode-se falar em melhoras reais para as mulheres, essa grande maioria oprimida mundialmente, nesses últimos 20 anos?

Eu acho que está cada vez mais complicado para as mulheres, porque os fundamentalismos estão mais fortes e estão na ONU. O máximo que se consegue é evitar andar para trás e isso eu pude confirmar com várias das mulheres que estiveram lá. Realmente, nesses 20 anos andou-se para trás do ponto de vista do fundamentalismo religioso, que é um perigo para a mulher. Temos os muçulmanos junto com os evangélicos, com a Igreja Católica, o Vaticano, todos em uma aliança espúria, mas uma aliança, para impedir que se avance nesses direitos básicos, principalmente nos direitos relacionados ao corpo da mulher. Eles fazem e já fizeram essa aliança em todas as conferências, o movimento de mulheres internacional lutou contra isso e eles cada vez estão mais fortes. É um retrocesso histórico, o que estamos vivendo, que seja um pêndulo que ande pra trás, mas que volte para frente depois é o que esperamos. O máximo que se pode esperar dessas conferências é que não haja retrocesso, infelizmente. O engessamento religioso nas questões da mulher pode ser visto no nosso Congresso, inclusive.

PSDB Mulher – O que é o Feminismo no século XXI?

Continuar a luta, não importa que nome se dê a ela. Temos vários focos, escolhidos pelas pessoas conforme sua ideologia, não importa o que interessa é continuar. Feminismo do século XXI é toda essa agenda que ainda está por aí.

Reminiscências

Durante os onze anos em que esteve à frente do UNIFEM, Branca conheceu e trabalhou em parceria com a presidente do PSDB Mulher Nacional, Solange Jurema, na época à frente da Secretaria Nacional de Políticas Públicas para Mulheres (SEDIM), com status de ministra de Estado.
“Foi no UNIFEM que conheci Solange Jurema e ficamos muito próximas, é uma mulher formidável e nos demos super bem. Foi uma amizade de mulheres que têm muito em comum. Engraçado que nesses espaços ideológicos a gente fica amiga como se da vida inteira de pessoas que conhece recentemente, por estarmos compartilhando a mesma luta, as mesmas ideias. Com Solange foi assim e a UNIFEM pôde apoiar algumas coisas que a SEDIM fazia. Foi um enorme prazer estar com ela; viajávamos juntas, participávamos da Reunião de Mulheres do MERCOSUL, que nós criamos – a SEDIM com o apoio do UNIFEM – é uma delícia relembrar isso”, encerrou.