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Um dia numa enfermaria de cuidados paliativos

idosos2POR CAMILA

06/08/15  09:52

O dia começa com uma reunião na sala dos médicos, que antecede a visita aos pacientes. O sol entra pela janela da sala e às vezes eu me perco olhando um avião que cruza o céu na trajetória de Congonhas. É a vista dos pacientes da enfermaria de cuidados paliativos do Hospital do Servidor Público Estadual.

É a vista dos que estão lidando com a morte iminente, cada um a seu modo. Mas nem todos pacientes de cuidados paliativos lidam com essa realidade de imediato, porque o conceito atual abrange uma doença ameaçadora da vida e não necessariamente sem cura.

Após uma longa discussão sobre cada caso, o grupo de médicas percorre o corredor da enfermaria. Um paciente prefere não entender o que significa seu diagnóstico, não olhar para o fim (esse sim sem possibilidades de cura). Outro, até em melhores condições físicas do que esse primeiro, escolheu ejetar-se do mundo antes que seu corpo falhasse por completo. Em depressão, ele se recusa a sair da cama, mesmo tendo músculos para isso. Seu sentido na vida é o trabalho, e a partir do momento que perdeu a possibilidade de realizá-lo, morreu para si mesmo. Não quer saber de aprender a conviver com a doença e permanece lá, esperando a morte chegar. “Dor, depressão e desamor mata mais do que qualquer tumor” me confidenciou uma das médicas.

Uma senhora está de olhos fechados, a mente em algum outro universo com a filha a velá-la de lágrimas nos olhos e desespero no coração. Ela nos vê entrando no quarto, ela chora, mas sabe que a mãe está “indo embora”. Essa mãe apresenta uma respiração chamada sororoca. Em inglês, o termo é “death rattle” – a respiração da morte. Tido como um sinal de que a pessoa está bem perto do seu último suspiro, ela soa como um ronco da alma. Faz um certo eco cavernoso, talvez por encontrar menos vida para absorver o som lá dentro. É fruto da perda.

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