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“São sempre as mulheres a lutar por liberdade”, por Beatriz Ramos

Foto: George Gianni/PSDB
Foto: George Gianni/PSDB

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Em 1936 uma moça de 26 anos saiu distribuindo quatro enteados adolescentes e três filhos – a criança menor tinha três anos, a maior sete – entre seus parentes fez uma mala e despencou de Maceió, Alagoas, para o Rio de Janeiro, capital da República, em plena ditadura Vargas.

Petulante e segura – não se sabe bem do que-, instalou-se com uns tios em um casarão do Méier, incomodou meio mundo, fez perguntas constrangedoras aos poderosos de então, não sossegou enquanto não tirou o marido do Presídio de Dois Rios, na Ilha Grande, em Angra dos Reis, quase um ano depois de sua prisão sem culpa formada.

Em janeiro de 1938 duas mulheres invadiram a Alemanha nazista, durante a Segunda Guerra Mundial, para resgatar uma menina que, nascida na Prisão de Mulheres de Berlim, acabara de perder a mãe, executada em uma câmara de gás. A mais velha era avó do bebê, a outra, sua tia. A viagem foi a terceira tentativa de resgate, não desistiram até conseguir salvar pelo menos a criança.

Em 07 de maio de 2015 falaram na Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal, Lilian Tintori, Mitsy Ledezma e Rosa Orozco.

Lilian é uma moça bonita, de 37 anos, mãe de uma menina de cinco anos e de um bebê de 20 meses. Seu marido, Leopoldo López, está preso desde fevereiro de 2014, acusado de incitar manifestações violentas. Isso mesmo, López é acusado de promover protestos que, uma vez nas ruas, foram invadidos por grupos armados de rojões, com máscaras e capuz, dando à polícia de Maduro o argumento necessário para reprimir, violentamente quem protestava de cara limpa, sem nada nas mãos. Parece familiar?

Preso sob acusação de assassinato, López já foi torturado várias vezes, mas o governo Dilma parece achar que nada disso fere os termos da cláusula democrática prevista no Protocolo de Ushuaia de 24/7/98, do MERCOSUL, que veda o ingresso de ditaduras no bloco. E apoia o regime Maduro, por omissão.

Mitsy Ledezma é mulher do prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, preso em fevereiro de 2015, sob acusação de arquitetar um golpe de estado em parceria com os Estados Unidos. De nada adiantaram as negativas da oposição e dos americanos. A prisão,  truculenta, à luz do dia, sem a menor preocupação com uma tintura sequer de legalidade, dá uma dimensão exata de como andam as instituições venezuelanas no momento. Não levaram tanques porque os corredores eram estreitos. Dilma Rousseff, mais uma vez, calou.

Rosa Orozco tinha uma única filha, de 21 anos de idade. Geraldín Moreno estava protestando em uma manifestação contra o regime de Maduro, em frente de sua casa, no dia 19 de fevereiro de 2014, quando foi ferida por milicianos chavistas com um tiro no rosto. A menina, levada ao hospital, morreu três dias depois. A mãe chora enquanto levanta o cartaz com duas fotos da jovem; uma a mostra viva, rindo; a outra, não.

Muitos brasileiros foram à audiência pública, éramos tantos que foram necessários mais dois auditórios para acomodar os participantes. Alguns choraram com Rosa, enquanto ela contava que, apenas naquele mês de fevereiro, 19 estudantes foram mortos em protestos contra o regime, a maior parte com tiros na cabeça. Executados.

Ouvindo seus relatos, imediatamente lembrei-me da mulher que abre esta crônica, Heloísa, que também deixou os filhos para trás e saiu desabalada para gritar por justiça para seu marido preso. Fico imaginando se o menorzinho de Lilian a reconhecerá, quando voltar de suas andanças e como estará sua família. Sei que a de Heloísa e Graciliano demorou a se reunir, levar sete filhos para o Rio, naquela época, seria difícil para quem estava saindo da cadeia, quebrado.

Heloísa recuperou primeiro as duas menores, Luíza e Clara, depois foi mandando buscar os outros, à medida que a vida ia endireitando. Consta que, quando foi pegar a caçula, já com quatro anos, a pequena olhou para ela e desandou a chorar. A mãe abraçou-a, preocupada e carinhosa, perguntou se não a reconhecera e se a garotinha não estava feliz em vê-la. “Eu conheci, mas pensei que fosse retrato”, veio a resposta. O mundo era grande, naquela época, a guria devia achar ter sido esquecida.

Sem imaginar consolo para a dor de Rosa Orozco, penso em Dona Leocadia e em Lygia Prestes, que foram à Alemanha três vezes, até que conseguissem resgatar das garras nazistas Anita Leocádia, com um ano de idade. Não consigo entender como o mundo mudou a ponto de a única mulher presente à audiência a menosprezar a dor da mãe em luto, ser exatamente uma senadora do antes perseguido PC do B.

Quando foi que interesses políticos menores passaram a prevalecer sobre os humanitários? Será que os comunistas esqueceram que sem a ajuda de Sobral Pinto, advogado de direita e de um enorme movimento mundial, nem Graciliano Ramos nem Anita Leocádia teriam sido libertados?

Não existe nada mais asqueroso que feminismo ou ativismo de direitos humanos de ocasião. A intervenção da senadora comunista Vanessa Grazziottin foi recebida em silêncio profundo, nas três salas, e recebeu de Rosa Orozco uma resposta indignada.

Que Lílian Tintori e Mitsy Ledezma, assim como os familiares de todos os presos políticos venezuelanos, recebam logo seus parentes de volta. Que Maria Corina volte à vida pública. Para Rosa Orozco fica nossa solidariedade, porque o que Maduro lhe tirou, ninguém no mundo pode devolver.

*Beatriz Ramos é cronista e responsável pelas mídias sociais do Secretariado Nacional da Mulher/PSDB