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“Nem paternalismo nem esmola, política de cotas é questão de inteligência”, por Solange Jurema

Foto: George Gianni/PSDB
Foto: George Gianni/PSDB

Foto: George Gianni/PSDB

A semana termina de maneira melancólica não só para as mulheres brasileiras. A rejeição da proposta de emenda à Constituição (PEC 182/07), que determinava a criação de uma cota mínima de 30% de participação feminina nos legislativos brasileiros prejudica não apenas a nós, mas à população em geral.

Muito se falou, durante a discussão da Reforma Política na Câmara dos Deputados, sobre a necessidade de aumentar a bancada feminina nos parlamentos brasileiros, como forma de representar, de maneira justa, a maioria da população feminina no país. Pessoalmente acho essa uma agenda vencida, embora justa, se este fosse um argumento que sensibilizasse os homens a nos ceder lugar, seríamos hoje metade das bancadas do Congresso Nacional.

O que é preciso entender é que nenhum país do mundo chegou à representação igualitária em seus parlamentos sem a adoção de políticas de cotas e a razão é simples: os homens se negam a abrir espaço para as mulheres, pura e simplesmente. Na Europa as cotas começaram a ser implementadas na década de 1970. Em 1992, 56 partidos políticos em 32 países já usavam essa estratégia de inserção de gênero.

Os países europeus, que adotaram sociedades igualitárias de gênero, tanto na política quanto na administração privada, alcançaram um grande salto em seus IDHs nos anos seguintes à implantação do novo modelo.

Ganham todos, homens e mulheres, quando mulheres preparadas – não laranjas, postes, fantoches ou qualquer outra denominação desairosa – dividem com homens igualmente competentes o pensar um novo país.

Modelos no exterior

Para os incrédulos um exercício fácil: basta analisar os vinte países melhor colocados no ranking mundial da ONU em igualdade de gênero e participação feminina na política, e comparar com os vinte melhor colocados em IDH, estabilidade econômica e desenvolvimento social pela mesma ONU. Todos verão que, com exceção de países africanos, em que as mulheres estão no poder político porque os homens foram chacinados – caso de Ruanda -, todos os outros estão nas duas listas.

Andorra, por exemplo, que é o segundo país em participação feminina e igualdade de gênero, foi até 2007 o primeiro lugar mundial em expectativa de vida, segundo a Wikipédia (atualmente em 9º não por queda, mas por haver sido ultrapassado por outras sociedades igualitárias), além de possuir um dos melhores IDHs do planeta.

Legislando para a sociedade

A Suécia conseguiu reverter péssimos índices sociais da década de 1938 ao adotar políticas igualitárias na década de 1960. Hoje é um país rico, e o 4º em igualdade de gênero.

Será mera coincidência? Acho que não. Penso que a mulher legisla com mais sensibilidade sobre assuntos sociais, o que faz com que países administrados por administrações igualitárias tenham melhor qualidade de vida.

Na Suécia, por exemplo, acaba de ser implantada a licença parental – não materna – de um ano, o pai que ganhar menos, ou tiver mais disponibilidade emocional, fica em casa com o filho. Envelhecer por lá é melhor do que em qualquer outro país do mundo. Outro acaso, ou leis feitas por quem normalmente cuida dos velhos e das crianças: as mulheres?

Ao contrário do que parece pensar boa parte dos políticos brasileiros, portanto, o sistema de cotas não só não é novidade, como foi adotado em grande parte da Europa há mais de vinte anos com excelentes resultados socioeconômicos.

Abrir espaço para mulheres vocacionadas, preparadas e competentes, que dediquem esse potencial a construir ombro a ombro com os homens um Brasil melhor, não é uma questão de paternalismo ou esmola. Não precisamos de um ou de outra.

Reconhecer o direito feminino a maior protagonismo na política nacional é, antes de mais nada, uma questão de inteligência e visão estratégica. Ganham todos, ganha o país.

Solange Jurema

Presidente do Secretariado Nacional da Mulher/PSDB