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Livro: Mal-entendido em Moscou

Divulgação Record
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Brasília (DF) – Feminista que se preze deve ler Simone de Beauvoir, isso é fato.  Mito da luta de gênero no século XX, a escritora formou com Jean Paul Sartre um dos casais mais famosos e polêmicos da intelectualidade francesa. Controvertida e libertária, Simone tem uma extensa obra sobre o pensamento feminino que não pode ser negligenciada.

Nossa dica da semana; “Mal-entendido em Moscou”, é um inédito da escritora, coisa rara, que chega às livrarias editado pela Record. Confira.

Sinopse

Escrito entre 1966 e 1967, Mal-entendido em Moscou deveria ter integrado a coletânea A mulher desiludida, que Beauvoir lançou em 1968. Apesar da qualidade do texto, entretanto, ele acabou substituído e permaneceu inédito por várias décadas. Em 1992, foi publicado pela primeira vez na França, ganhando as páginas da revista Roman 20-50. Agora, a obra chega finalmente às livrarias brasileiras, em edição da Record.

 

Mal-entendido em Moscou intercala os pontos de vistas dos dois protagonistas, André e Nicole, na abordagem de temas como o amor, a chegada da idade, a passagem do tempo e as ilusões perdidas. A estratégia adotada pela autora permite aos leitores comparar as perspectivas históricas do personagem masculino com as da feminina, além de dar ênfase ao desenrolar dos dramas resultantes de pequenas falhas de comunicação.

 

Para construir o pano de fundo histórico do livro, Beauvoir se inspirou nas viagens que fez com o marido, o filósofo Jean-Paul Sartre, à URSS dos anos 1960. Assim, por meio das experiências vividas por seus protagonistas, ela consegue falar sobre as transformações por que passaram os países socialistas na tentativa de fortalecer as bases do regime: as concessões feitas em nome do povo, a burocratização do Estado, a desconfiança em relação ao que é estrangeiro, as esperanças dos mais jovens, as decepções dos mais velhos.

 

Simone de Beauvoir, escritora francesa, intelectual, filósofa existencialista, ativista política, feminista e teórica social, nasceu em 1908, em Paris. Ao longo da vida escreveu romances, ensaios, biografias, uma autobiografia e tratados de filosofia, política e questões sociais. Beauvoir morreu em 1986, depois de dedicar toda uma vida a escritos que figuram entre os mais importantes do século 20. Foi enterrada ao lado de Sartre, seu marido, no cemitério de Montparnasse.

 

 

TRECHO DO LIVRO

 

Se a União Soviética optasse pela coexistência pacífica, o socialismo não seria um projeto para o futuro. Quanta esperança perdida! Na França, a Frente Popular, a Resistência e a emancipação do Terceiro Mundo não fizeram o capitalismo recuar nem um centímetro. A Revolução Chinesa gerou o conflito sino-soviético. Não, o futuro nunca pareceu tão desolador a André. “Minha vida não terá servido para nada”, pensou. Tudo o que havia desejado era que sua vida se inscrevesse de modo útil em uma história que levasse os homens à felicidade. Talvez um dia conseguissem. André tinha acreditado por tempo demais para não continuar acreditando mais um pouco: mas isto ocorreria através de desvios que levariam a história a deixar de ser sua.

A voz de Nicole o afastou de seus pensamentos.

— O francês de Macha é perfeito; talvez perfeito demais, um tanto afetado.

— Tenho muito medo de cometer erros — justificou Macha.

— Percebe-se.

Elas se voltaram novamente para as folhas datilografadas, sorrindo e cochichando. Nicole, em geral tão severa com as mulheres, sentia uma verdadeira amizade por Macha; o entendimento entre as duas agradava a André.

— Também quero ver essa tradução — disse ele.

Mesmo que o futuro parecesse desolador, não seria possível estragar esse momento de intimidade e ternura. André deixou suas ruminações de lado.

(Págs. 51 – 53)

 

*Sinopse divulgada pela editora Record