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“O Brasil é um dos países com mais baixa participação das mulheres na política: certo ou errado?”, por Rejane Xavier

REJANE XAVIERCerto, se medirmos o percentual de mulheres em cargos eletivos, do executivo ou legislativo. São muito poucas as governadoras e prefeitas, as vereadoras, deputadas ou senadoras. Mesmo as ministras, secretárias estaduais ou municipais – cargos não eletivos, mas que em geral pressupõem uma militância partidária ou alguma experiência eleitoral – são raras.

Errado, se considerarmos “política” a vida pública em geral. Mulheres estão muito presentes no judiciário; participam muito em movimentos sociais, em iniciativas comunitárias, em associações profissionais, no voluntariado religioso ou empresarial.

Não há restrição ou preconceito que impeça a mulher brasileira a participar de tudo o que a interessa. Mulheres têm preparo intelectual e profissional: há mais mulheres universitárias do que homens; há mais meninas alfabetizadas do que meninos. Mulheres têm competência e experiência; são capazes de liderar, sabem se comunicar, e mostram isso todos os dias, na família, no esporte, no trabalho na iniciativa privada ou no serviço público. Uma em cada quatro famílias, no Brasil, é chefiada por uma mulher.

Por que, então, não há mais mulheres na política partidária e institucional?

A resposta não é simples, os fatores são múltiplos, mas uma parte da resposta tem certamente a ver com as características do nosso sistema político, que contribuem para afastar a participação feminina. As mulheres não gostam da forma como se faz política no Brasil.

Lembro de uma reunião de que participei, na qual se perguntava a várias mulheres politicamente engajadas e esclarecidas por que elas relutavam em se filiar a um partido e atuar partidariamente. Uma das respostas foi que nos partidos existe uma “concorrência predatória”, onde os próprios companheiros travam ferozes disputas dentro do mesmo espaço eleitoral.

Isso seria a antítese do ideal que movia aquelas mulheres a atuar politicamente, porém fora de partidos: o ideal de agir em conjunto, de forma colaborativa, por algo que elas consideravam certo e bom para a sociedade.

De certa forma, portanto, as mulheres são poucas na política institucional não porque sejam impedidas de participar, mas porque não gostam dela. As mulheres não se sentem à vontade com o estilo de atuação que predomina nos partidos e nos círculos do poder: alianças esdrúxulas, rasteiras nos companheiros, negação de qualquer reconhecimento a algo feito pelos adversários, “verdades” que se moldam às circunstâncias, ética que se acomoda aos objetivos do momento.

E qual seria a vantagem de estimular a participação feminina, se fosse para continuar repetindo “mais do mesmo”, só que com batom?

Mulheres no poder simplesmente não mudarão nada, e provavelmente nem acontecerá, se não for para mudar o poder. Que diferença farão mulheres se comportando como homens – como essa espécie de homens que são os políticos – com o mesmo estilo, os mesmos objetivos, a mesma forma de atuação?

Uma política feminina, um “poder feminino” – mais solidário, menos individualista, com mais cuidado e menos competição – precisa surgir pelas e para as mulheres, para que tenha sentido e se torne viável a palavra de ordem “mulheres no poder”.

*Rejane Xavier  – Jornalista e doutora em Filosofia