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“Feminista sim, femista não!”, por Matheus Leone

Matheus Leone Foto George GianniÉ impressionante como as ações e posturas radicais, agressivas e intransigentes de um grupo de pessoas pode manchar a imagem de toda uma doutrina política. Os conservadores – em especial os ditadores conservadores – usaram muito o nome “Liberalismo” pra justificar suas ações, mas de liberalismo não havia absolutamente nada. Não é diferente com o feminismo, que nos últimos anos tomou conotação pejorativa na sociedade porque começou a haver uma confusão conceitual em torno dele. O que as pessoas tomam por feminismo hoje não é feminismo, e sim femismo. Qual a diferença? Tentarei aqui fazer uma breve e simplória explanação acerca de suas diferenças.

Norberto Bobbio, ilustre cientista político italiano, define em seu dicionário de política o feminismo como “… um movimento e um conjunto de teorias que têm em vista a libertação da mulher.” (BOBBIO, Norberto et alii 2010). De fato, a doutrina nascida nos Estados Unidos como um marco filosófico, mas que já vinha sendo tratada historicamente por diversos autores como John Stuart Mill em seu On The Subjection of Women (1869) visa dois objetivos, um primeiro de cunho mais liberal normativo e outro de cunho mais prático.

O “protofeminismo” liberal vinha para lutar pela emancipação da mulher. Emancipação que vinha em um cenário onde a mulher era legalmente propriedade do pai, e posteriormente do marido. Não era reconhecido nenhum grande direito de posse ou direitos políticos em geral, e o feminismo veio para questionar esse status quo dominante na sociedade europeia de moral cristã.

Em um segundo momento, o feminismo tomou como foco a libertação da mulher. Aí é liberdade enquanto manifestação real do princípio liberal do respeito ao indivíduo, seja ele homem ou mulher. Mas libertação do que? Obviamente houve um imenso debate entre uma gama de autores que concordam e discordam em uma série de questões, mas de uma forma geral, é a libertação de amarras sociais que representam resquícios de patriarcalismo e de uma moral que considera a mulher inferior ao homem. É luta pela libertação da mulher enquanto mulher, e não mais enquanto semelhante ao homem. Saiu-se de um momento onde a luta era pelo reconhecimento da igualdade entre mulheres e homens para um momento de valorização das especificidades femininas, ou seja, a defesa de que a mulher deve ser igual ao homem perante a lei, mas que ela não é igual aos homens, que a mulher é um indivíduo diferente, que a experiência de ser mulher molda a pessoa de uma forma que não pode ser compreendida pela sociedade masculinizada. Simone de Beauvoir é um dos maiores nomes desse existencialismo feminista. Beauvoir afirmava que toda a história, toda a sociedade, toda a filosofia são pautadas por uma visão de mundo predominantemente masculina, e que essa visão é inclusive o que determina o que é ser mulher. É a própria sociedade quem determina o que é ser mulher, e não a própria mulher nas suas escolhas de vida. O feminismo luta pela libertação desse tipo de amarra.

E o femismo, o que é? Bem, o femismo é um termo usado para descrever o contrário do machismo, ou seja, a crença de que a mulher é superior ao homem, portanto deve ter predominância social, política etc. O femismo é tão condenável quanto o machismo, pois representa uma visão odiosa da sociedade que vê o homem e a mulher como opostos inconciliáveis, até inimigos. O feminismo não é isso. O feminismo, principalmente o feminismo liberal, busca o respeito ao indivíduo mulher da mesma forma que se respeita o indivíduo homem. O respeito ao indivíduo, e essa é a visão liberal, é o respeito de todos independente de sexo, de cor, de orientação sexual, de classe social e/ou de concepção de bem. É justamente a noção de que ninguém é igual a ninguém e que, portanto, todos devem ter a chance de se tornarem indivíduos plenos sem constrangimentos sociais e estatais para isso.

Dessa forma, sempre que eu ouço uma mulher falar que não é feminista eu assusto, mas tenho a noção de que muitas vezes o que a mulher entende por feminismo é a ideia radical e agressiva das femistas quase “feminazis” que não buscam o respeito ao indivíduo mulher e a liberdade mulher de fazer da sua vida o que ela entender e sim a imposição de seus pontos de vista a qualquer custo. Algo que bem ilustra isso são as agressões que as mulheres muçulmanas sofrem na França, sendo obrigadas a não usarem seus véus e em alguns casos tendo seus véus arrancados por femistas exaltadas que querem liberta-las mesmo que as mesmas não queiram sê-lo. O meu intuito ao escrever esse texto foi justamente separar essas duas visões de mundo que de uma forma geral são próximas, mas uma é a radicalização da outra. Por isso eu digo que o feminismo é uma doutrina que tem que ser abraçada por todos nós, homens e mulheres, na luta por uma sociedade menos impositiva no sentido de obrigar o indivíduo a viver de tal ou tal forma. O indivíduo, homem ou mulher, deve ser livre para construir sua vida da forma como bem entender sem que os constrangimentos sociais lhes sejam impostos. O feminismo é sim combater o machismo (que é a ideia de que o homem é superior à mulher), mas não pode se igualar à ele no seu contrário – o femismo. Por isso eu digo à todos e todas que feminismo sim, femismo não.

MATHEUS LEONE
Estudante de Ciência Política na Universidade de Brasília

BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola e PASQUINO, Gianfranco. Feminismo. In: “Dicionário de Política volume 1”. Brasília: Ed. UnB, 13ª edição, 4ª reimpressão, 2010. P. 486-490