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“Grito que não quer calar”, por Terezinha Nunes

terezinha-nunes-300x216Procurei não ver as imagens. O mal-estar, simplesmente ele, de tomar conhecimento do estupro coletivo de uma adolescente de 16 anos no Rio de Janeiro foi suficiente para deixar um amargo na boca e uma dor no coração, desde o início da semana passada, quando o assunto tomou conta das redes sociais.

Por mais que hajam protestos na rua, artigos em jornais, comentários horrorizados, sobretudo no facebook, o Brasil ainda vai amargar por algum tempo os efeitos da barbárie do crime cometido em pleno século XXI e, o pior, exibido como troféu pelos marginais na Internet.

A cada dia dezenas de mulheres são estupradas no Brasil, muitas vítimas de pessoas próximas, inclusive familiares, mas fazemos de conta que não sabemos. As vítimas se multiplicam e poucos são chamados à polícia para se explicar.

A jovem do Rio, porém, surgiu como um grito que não quer calar. Que não pode ser abafado, que ganhou o mundo e que exige punição, punição exemplar.

A decisão do presidente Michel Temer de criar um departamento na Polícia Federal – ela mesma, que tanto faz bem à nossa autoestima – para daqui para a frente acompanhar os crimes contra a mulher no Brasil é um alento mas, no momento, é pouco.

O que se estabelece como fundamental agora é ver o crime elucidado no Rio de Janeiro. E não é difícil. Os criminosos mostraram a cara, alguns zombando de todos nós, homens e mulheres de bem, como o que apareceu nas câmaras da TV, indo depor, e sorrindo para os repórteres.

O que está acontecendo com o Brasil para termos chegado a tanto? Muitos tratados precisarão ser escritos, pesquisas realizadas, estudos concluídos, mas o fundamental hoje é continuar mantendo a jovem como vítima, que é, e os estupradores como réus, que são.

Mas pelo que se vê nas redes sociais e até por meio de policiais – como o primeiro delegado, já afastado – é querer culpar a jovem, ao ponto de obrigá-la a estar se defendendo como se não bastasse a dor que está sentindo e a vergonha de ver-se exibida nua e sangrando nas redes, como afirmam os que chegaram a ter coragem de observar as imagens.

Agora fala-se que não foram 33 os estupradores e até médicos chegaram a afirmar a jornalistas que se fossem 33 a jovem teria morrido, como se o estupro, o maior crime contra a mulher fora a pena de morte, não tivesse importância se tivesse sido praticado por menos homens, embora, como disse um dos filmaram as cenas e a exibiram, que eram 30.

Mas quase ninguém mais fala desse criminoso que teve sua voz reproduzida em áudio na TV, fala-se da jovem que acordou no meio de 33 homens, após ser dopada para a concretização do crime.
A continuar assim e com os criminosos soltos não é de admirar, como acontece com a maioria dos estupros praticados em nosso país, que a moça acabe sendo tida como culpada e amargando até o fim da vida as marcas da brutalidade de que foi vítima.

Ou exigimos apuração, acompanhamos os acontecimentos e continuamos a nos indignar, ou essa barbaridade que enlameia a nossa imagem como Nação, ao invés de ser, como se espera, o início da punição com seriedade dos crimes contra a mulher, ou estaremos todas e todos perdidos.

*Terezinha Nunes é coordenadora de Comunicação Social do PSDB Mulher Nacional e presidente do PSDB Mulher de Pernambuco