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Mulheres falam da dor pela perda de familiares vítimas de feminicídio

Foto: Corbis
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Na sexta reportagem da série, o Correio narra o sofrimento e a dor de duas mulheres que tiveram familiares assassinadas por homens marcados por sentimentos de posse. Ambas lutam para reestruturar a vida

“É revoltante. Uma vida vale tão pouco? Acabou com ela e agora vai viver a vida. É uma punição vagabunda. Por isso acontece tanto”, lamenta Cilene Sousa Farias
Inconsciente, irracional e arraigado ao extremo na sociedade, o machismo mata 13 mulheres a cada dia no Brasil. Mas não existe estatística capaz de mensurar o tamanho do sofrimento para quem fica. Quando um homem chega ao ponto de assassinar a pessoa que já não lhe quer ou nunca lhe quis, ele decreta o fim de uma família. Ainda que a vida retome seu curso, o luto, de certa forma, dura para sempre. A dor não cessa para Cilene Sousa Farias, 39 anos, e Reginalva Nobre da Silva, 37. Cada uma a seu tempo, são sobreviventes de um trauma que finca raízes profundas na alma. Uma enterrou a irmã; outra, a mãe. Ambos os criminosos eram conhecidos das famílias, como na grande maioria dos casos de feminicídio, conforme mostra a série de reportagens Quando não mata, fere, que o Correio publica desde o último domingo.

Cilene, irmã mais velha de Suênia Sousa Farias, considerava-se também sua protetora. Com ela, dividia as vontades e angústias. Compartilhavam também certa ingenuidade. Nem uma nem outra — na verdade, ninguém — jamais poderiam supor que o fim do relacionamento da caçula de uma família de muitas mulheres poderia levar ao enredo trágico que se seguiu. Suênia foi morta aos 24 anos, atingida por cinco tiros, por um homem que não aceitou o fim do relacionamento. “Nunca imaginamos que uma coisa dessas pudesse acontecer”, confessa Cilene.

 

“Ele matou uma mulher alegre, sorridente, carinhosa, que cuidou de 11 filhos, todos de caráter, trabalhadores”, conta Reginalva Nobre da Silva

 

Jovem e bonita, Suênia queria ser delegada. Estudava direito e mirava a carreira na Polícia Civil. “Ela não falava em se casar, ter filhos, pensava só na carreira, nos estudos, ia de manhã e à tarde para a faculdade. Tinha um futuro promissor pela frente”, lamenta a irmã. Envolveu-se com um professor do curso na faculdade onde estudava, na Asa Norte. Aos poucos, segundo o relato de Cilene, o excesso de controle dele começou a incomodá-la; o ciúme era excessivo. Ela pôs fim ao relacionamento, e ele passou a persegui-la. Suênia reatou um antigo romance, e a situação piorou. A família só soube do envolvimento conturbado pouco tempo antes da tragédia.

Três meses depois do fim do namoro com o professor, ele a abordou no estacionamento da faculdade. Eram 15h30, de 30 de setembro de 2011. “Foi quando ela disse que preferiria morrer a voltar para ele. Os tiros foram dados para que ela não resistisse. Foram cinco. Eu vi o corpo dela. Todos à queima-roupa. Ele a destruiu”, recorda-se, emocionada. O professor andou com o corpo por horas até se entregar na 27ª Delegacia de Polícia (Recanto das Emas), onde foi preso. “Eu tinha falado com ela pouco tempo antes de ele a pegar. Ela estava feliz. Ia a um casamento com o namorado, em Goiânia. Ela só disse que queria muito me ver, falar comigo. Foi o pior dia e a pior notícia da minha vida”, diz Cilene.

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