ArtigosImprensa

“Tragédia anunciada”, por Terezinha Nunes

Terezinha NunesAté o dia 15 de novembro último o Brasil registrou, só no ano de 2015, 1 milhão e 534 mil casos de dengue com 811 mortos. Um aumento de 176% de pessoas afetadas em relação ao mesmo período do ano de 2014.

Os casos de chikungunya chegaram a 17 mil e o zika vírus produziu 2.782 casos de microcefalia em bebês sendo que 40 deles vieram a falecer.

“Um mosquito que traz doenças dessa gravidade não merece contemplação” anunciou, há poucos dias, o ministro da saúde Marcelo Castro, conclamando a sociedade brasileira a reagir contra o mosquito aedes aegypti, o real causador de toda essa tragédia.

O ministro não explicou porque o Governo Federal, que detém o grande volume de recursos para custear os programas de saúde brasileiros – estados e municípios estão à míngua – sabendo da existência do mosquito entre nós e da necessidade de combatê-lo sem trégua, não o fez na hora adequada para evitar que chegássemos ao ponto em que chegamos.

Experiência não nos falta. O Brasil já conseguiu extinguir o aedes em duas ocasiões. Na primeira, no início do século XX, a tarefa coube ao cientista Oswaldo Cruz que ajudou, com mão de ferro, a combater a febre amarela, outra doença transmitida pelo mesmo mosquito, tornando-se, pela façanha, conhecido nos meios científicos internacionais.

A segunda vez aconteceu – também para conter a febre amarela – no ano de 1955 quando foi extinto na comunidade de Santa Terezinha, no interior da Bahia, o último foco de resistência do inseto.

Com dois exemplos desse tipo é de se perguntar: por que se demorou tanto a tomar uma providência?

O cientista Valcler Rangel, vice-presidente da Fiocruz, acha que só a microcefalia despertou as autoridades para a gravidade da presença do aedes aegypti e de todo mal que ele pode causar. “A epidemia de microcefalia, além de singular é das mais graves situações que a gente tem na história da saúde pública brasileira”- comenta, destacando que, mesmo assim, as mortes pela dengue já deveriam ter antes provocado a luta pelo extermínio do mosquito, evitando a chegada das novas doenças.

É preciso destacar que além das autoridades de saúde, a comunidade científica também tem sua parcela de culpa por não ter dado seu alerta a tempo, assim como o mais simples cidadão que conserva focos do mosquito em casa.

Independente dos culpados e o Governo Federal, o maior deles, o certo é que vivemos uma tragédia anunciada, pois estava à vista de todos. Mas, infelizmente, quase ninguém quis enxergar.

*Terezinha Nunes é presidente da Junta Comercial de Pernambuco e membro da Executiva Nacional do PSDB.