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“Uma espécie em vias de extinção”, por Beatriz Ramos

Foto: Tania Ribeiro
Foto: Tania Ribeiro

Foto: Tania Ribeiro

As redes sociais, tão eficientes quando se trata de trazer informações que governos autoritários prefeririam manter em sigilo, algumas vezes me bombardeiam com imagens chocantes, sem que eu tenha tempo de me preparar ou proteger delas.

Somente na última semana recebi três posts; o primeiro mostrava um adolescente exibindo, orgulhoso, um pequeno cão crucificado, o segundo pedia minha assinatura em abaixo-assinado pelo fim do costume chinês de fritar vivos cães e gatos – com a fotografia de dois cãezinhos tentando sair da frigideira – e o terceiro, ainda mais terrível, trazia um vídeo postado no Youtube, com depoimentos não legendados de crianças sírias, algumas bastante feridas, em frente às ruínas causadas por uma guerra que já dura quatro anos agravada, agora, com o inexorável avanço do Estado Islâmico.

Chorei com os três e apaguei os dois primeiros imediatamente. O terceiro, mantive e compartilhei. As reações não se fizeram esperar: indignação, impotência, raiva, apelos à ONU, ao Crescente Vermelho, questionamentos sobre como é possível, em pleno século XXI, assistir impassível ao sofrimento de tantas crianças. Uma amiga lamentou a falta de legendas, por não poder entender o que diziam as pequenas vítimas.

Não eram necessárias. Jamais foi tão fácil entender outra língua quanto ao ouvir aqueles pequenos seres desesperados, sofridos e, infelizmente, muito longe de ser as únicas crianças nessa condição no mundo de hoje. Enquanto escrevo, crianças são chacinadas pelo Boko Haran, outras, transformadas em bombas pelo Estado Islâmico, ou queimadas vivas, como mártires.

Nas favelas do Brasil, crianças são aliciadas cada vez mais cedo pelo tráfico, para morrer antes dos dezoito anos no fogo cruzado do jogo real entre polícia e ladrão.

A raça humana, tão frágil em relação às outras, com seus patéticos dedos, unhas e dentes, em comparação às formidáveis garras e presas dos predadores com quem era obrigada a conviver, como terá sobrevivido e chegado onde chegou? O bicho homem conseguiu superá-las e conquistar a condição de espécie dominante graças a uma enorme capacidade de adaptação, uma inteligência privilegiada e por haver entendido que, formando parcerias com alguns animais, a vida ficava mais fácil.

Os cães convivem conosco há mais de 18.800 anos, ou seja, ainda na época em que éramos caçadores e coletores. Essa relação foi essencial para nossa proteção como espécie, em um mundo povoado por feras que poderiam facilmente nos exterminar, não fosse a presença de nossos amigos quadrúpedes. Assassinar cruelmente parceiros tão antigos, revela total falta de empatia e compaixão, e não é um fenômeno restrito a um país, infelizmente.

Durante os três períodos da Pré-História, as crianças eram preciosas e protegidas por todos os integrantes das tribos. Os humanos antigos, ignorantes se comparados aos sofisticados homens modernos, sabiam que sua sobrevivência estava ligada aos pequeninos, sem crianças a família morreria, por não ter adultos que a defendessem no futuro próximo. Uma tribo sem crianças estava fadada a desaparecer, o futuro dependia delas, eram sagradas.

Matar seus filhos é um comportamento patológico, detectado em muitas espécies, quando submetidas e estresse absoluto. Recentemente, vários casos de golfinhos-fêmeas em cativeiro impediram seus filhotes recém-nascidos de chegar à superfície para respirar, no que foi interpretado como um comportamento anormal, de espécie em sofrimento.

Sou mãe e avó, para mim é impossível aceitar que faço parte de uma espécie que mata crianças e animais, destrói a única casa em que vive e se afirma civilizada e evoluída. “Evoluída” em quê, exatamente? Em se desconectar? Em ignorar a pobreza e o sofrimento alheios? Em ostentar e consumir sem se preocupar com quem nada tem?

Desde o século passado cientistas alertam para o descaso com que a humanidade trata o planeta Terra, sem que nossos governantes levem a sério os avisos, ou tomem medidas para amenizar o impacto da desenfreada ocupação humana. Não fomos em frente com a energia limpa, continuamos vivendo como se nossos recursos naturais fossem inesgotáveis e o Banco Mundial não houvesse avisado, em novembro de 2014, que sem ação imediata as mudanças climáticas afetarão drasticamente a Terra em 25 anos.

Já me preocupei muito, agora não tanto, percebo em nosso comportamento social sinais inequívocos do que, para mim, é pura autodestruição. Se continuarmos exterminando ou assistindo passivamente ao sacrifício de nossas crianças, não haverá futuro a salvar, ou população para herdar o que sobrar da Terra.

*Beatriz Ramos é cronista