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“O espírito revolucionário no Palácio do Planalto”, por José Casado

Foto: George Gianni/PSDB
Foto: George Gianni/PSDB

Foto: George Gianni/PSDB

O governo deveria fazer uma revolução apoiada por robôs. É o que sugere um documento obtido no Palácio do Planalto pelos repórteres Valmar Hupsel Filho e Ricardo Galhardo, aparentemente produzido pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República. Ontem, ao reconhecê-lo, a presidente preferiu qualificar como “não oficial”.

Desde os manuscritos em papiro, sabe-se que papel aceita tudo — inclusive estas linhas. Nesse documento “não discutido pelo governo”, segundo a presidente, escreveram-se mais de 1.500 palavras, para a reflexão de Dilma Rousseff nas 48 horas seguintes ao desfile de multidões nas ruas de 160 cidades, na noite de domingo, e ao panelaço que se estendeu na noite de segunda-feira.

Ele contém um receituário de pílulas para a presidente atônita com o ruído das ruas, num país em que não existe crise institucional — apenas um governo sem rumo e com menos de três meses de mandato realizado.

Sugere aspirinas de obviedades: “Não adianta falar que a inflação está sob controle, quando o eleitor vê o preço da gasolina subir 20% de novembro para cá ou a sua conta de luz saltar em 33%.” Ou ainda: “É preciso aceitar a mágoa desses eleitores (insatisfeitos), reconquistá-los.”

Seu grande momento é a proposta de meios para reversão da crítica coletiva a Dilma, a Lula e ao Partido dos Trabalhadores. No texto — por sinal, mal escrito —, propõe-se a criação de um autêntico exército de robôs para uma operação clandestina de defesa, em regime de prontidão permanente, 24 horas por dia, sete dias por semana.

Atuaria de forma oculta, ardilosa, em missões típicas de sapadores: “A guerrilha política precisa ter munição vinda de dentro do governo, mas ser disparada por soldados fora dele.”

Argumenta-se que o crescimento da insatisfação se deu no período pós-eleitoral. Em confissão, lembra-se nesse documento “não oficial”, que “a partir de novembro, as redes sociais pró-Dilma foram murchando até serem quase extintas”.

“Principal vetor de propagação do projeto dilmista nas redes, o site Muda Mais acabou” — acrescenta. “Os robôs que atuaram na campanha foram desligados e a movimentação dos candidatos do PT foi encerrada.”

Em contrapartida, “a tática do PSDB foi exatamente a oposta”. Alega-se: “Cerca de 50 robôs usados na campanha de Aécio continuaram a operar mesmo depois da derrota de outubro. Isso significou um fluxo contínuo de material anti-Dilma, alimentando os aecistas e insistindo na tese do maior escândalo de corrupção da História, do envolvimento pessoal de Dilma e Lula com a corrupção na Petrobras e na tese do estelionato eleitoral. Tudo com suporte avassalador da mídia tradicional.”

“Em estimativas iniciais” — continua —, “a manutenção dos robôs do PSDB, a geração de conteúdo nos sites pró-impeachment e o pagamento pelo envio de WhatsApp significaram um gasto de quase R$ 10 milhões entre novembro e março. Deu resultado. Em fevereiro as mensagens/textos/vídeos oposicionistas conseguiram a capacidade de atingir 80 milhões de brasileiros. As páginas do Planalto mais as do PT, 22 milhões. Ou seja, se fosse uma partida de futebol, estamos entrando em campo perdendo de 8 a 2.”

Conclui: “De um lado, Dilma e Lula são acusados pela corrupção na Petrobras e por todos os males que afetam o país. Do outro, a militância se sente acuada pelas acusações e desmotivada por não compreender o ajuste na economia. Não é uma goleada. É uma derrota por W.O..”

Em meio à crise, alguém no Palácio do Planalto produziu e levou à presidente um documento “não oficial” propondo-lhe enfrentar os protestos nas ruas liderando uma revolução com um exército clandestino de robôs.

Dilma não deveria perder a chance de mandar imprimir uma placa e deixá-la à vista na sua sala de trabalho: “Errar é humano, mas, para se produzir um monstruoso erro, é preciso um computador.” Depois, pode cair na gargalhada.

Coluna de José Casado. Publicado em O Globo, em 20/03/2015