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“Mulheres são mais realistas, não conservadoras”, por José Serra

Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado

O conservadorismo político das mulheres é um preconceito disseminado por análises equivocadas de pesquisas sobre expectativas de voto. As mulheres têm origens sociais diferentes e vivem destinos diversos, condições econômicas extremamente desiguais e níveis educacionais idem. São frequentemente tratadas – tanto por homens quanto por outras mulheres – com desprezo e abuso e, em sua maioria, encaradas como inferiores. Como as mulheres diferem em dimensões muito diversas, atribuir o mesmo comportamento político a elas, em geral, é como calcular a média entre bananas, laranjas, tratores e naves interespaciais: não tem sentido.

É conhecido, no meio político, o hábito de sobrecarregar a lista partidária com candidatos pouco ou nada viáveis que, embora não se elejam, ajudam a eleger outros candidatos da legenda devido ao sistema proporcional de distribuição de votos. Ultimamente, com a adoção do subsídio público para as campanhas partidárias, multiplicaram-se as denúncias de desvio das cotas para mulheres, mediante a criação de um número desproporcional de candidatas, cujos valores de financiamento seriam, na verdade, transferidos para a campanha de candidatos – homens, evidentemente – da preferência da direção partidária.

Ora, em vez de usar a mulher como instrumento manipulado de propaganda eleitoral de candidatos, que são às vezes profundamente machistas, paternalistas ou até acusados de abusar de mulheres, todo representante político tem o dever de propor, formular, implementar ou executar políticas específicas que respondam aos desafios e interesses de segmentos diferenciados. Trata-se de adotar políticas afirmativas voltadas especificamente para a diversidade de condições sociais femininas, porque são as mulheres, em sua grande maioria, e independentemente de suas diversidades, mais vulneráveis às condições sociais, políticas e culturais.

Quando falo em políticas específicas, estou deliberadamente excluindo políticas genéricas. Tomemos o exemplo das políticas educacionais que, quase invariavelmente – de acordo com as condições sociais – atingem mais as mulheres e sua prole. Não teria sentido implantar uma política universal de fácil acesso a creches, já que o acesso a esse serviço é irrelevante para as mulheres de famílias com mais alto padrão de vida que trabalham ou prezam seu lazer. Já para as mais pobres, sem creche o trabalho da mãe se torna um tormento e não existe lazer.

Quando as crianças estão no ensino elementar, a merenda, a distância e a segurança são questões prioritárias, e não o acesso ao ensino superior, que tende a preocupar a imensa maioria das mães que dispõem de recursos para manter sua prole em escolas privadas de alto custo. No ensino médio, que é um passo definitivo para a vida adulta, expectativas e angústias de mulheres socialmente desiguais pouco têm em comum.

Parece claro, portanto, que, para mulheres com menos recursos para cuidar de sua família, os desafios da vida exigem realismo. Pesquisas que supostamente revelam o conformismo ou o conservadorismo são indicadores de que mulheres diferentes social, econômica e culturalmente necessitam manter os pés no chão. As diferenças entre homens e mulheres nas pesquisas eleitorais não indicam que elas sejam mais conservadoras, e sim que são mais realistas, independentemente de suas condições de vida.

Em todo o mundo, as mulheres tendem a ser socialmente educadas não apenas para acolherem, desenvolverem e darem vida a um feto, mas para exercerem a atividade criadora de transformar esse ser indefeso e totalmente dependente em um ser humano independente – uma verdadeira revolução. Os homens, por sua vez, são socialmente orientados para a proteção da prole, uma função essencialmente conservadora.

Não se trata de um destino biológico dos seres humanos e de vasta lista de mamíferos: a mulher conhece a função conservadora dos homens e, em sua falta, frequentemente os substitui, como ocorre hoje com um número crescente de mulheres de todos os níveis econômicos e sociais. Tampouco o homem ignora a função criadora feminina e, em sua ausência, com frequência a substitui. Evidentemente isso também se aplica a relacionamentos homoafetivos que desejam criar uma prole, entre os quais pode, ou não, ocorrer esse compartilhamento de funções. Toda política social que pretenda beneficiar as mulheres não pode ignorar essa realidade.

Nas presentes eleições, como em outras que as antecederam, as eleitoras foram exploradas para favorecer partidos ou candidatos específicos, ou tratadas como um eleitorado indiferenciado, como mulheres em geral, e não atraídas por meio de propostas de políticas diversificadas para mulheres com demandas específicas.

Eleições não faltarão e, nas próximas, para prefeitos e vereadores, o realismo do dia a dia do eleitorado feminino poderá exigir propostas mais condizentes, e não reações conformistas, como convêm às candidaturas populistas ou simplesmente demagógicas que entulham as listas partidárias.

*José Serra é senador pelo PSDB de São Paulo. Artigo publicado pelo jornal O Estado de S.Paulo.

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